Diretriz da SBC sobre Diagnóstico e Tratamento de Pacientes com Cardiomiopatia da Doença de Chagas – 2023
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Esta diretriz da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) atualiza as recomendações para diagnóstico e tratamento da cardiomiopatia crônica da doença de Chagas (CCDC), enfatizando a persistência parasitária como mecanismo central da patogênese e a necessidade de estratificação de risco individualizada. As principais recomendações incluem o uso de betabloqueadores, IECA/BRA, espironolactona e, em casos selecionados, amiodarona para arritmias, com indicação de CDI baseada em FEVE e sintomas, e transplante cardíaco para casos refratários. A diretriz destaca a importância de serviços estruturados e abordagem multidisciplinar para melhorar o prognóstico e a qualidade de vida dos pacientes.
Full summary
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**Background**
A doença de Chagas (DC), causada pelo protozoário Trypanosoma cruzi, é uma doença tropical negligenciada que afeta 6 a 7 milhões de pessoas no mundo, principalmente na América Latina. A cardiomiopatia crônica da doença de Chagas (CCDC) é a manifestação mais frequente e grave, ocorrendo em cerca de 30% dos indivíduos infectados, e é caracterizada por insuficiência cardíaca (IC), arritmias ventriculares e fenômenos tromboembólicos. Esta diretriz da SBC de 2023 foi elaborada para atualizar as recomendações de diagnóstico e tratamento, uma vez que a última diretriz da SBC sobre o tema foi publicada em 2011. O documento foi desenvolvido por um painel de especialistas e baseou-se em uma metodologia que valorizou evidências diretas e indiretas, utilizando o sistema GRADE modificado para classificar a qualidade das evidências e a força das recomendações.
**Methods**
A diretriz foi elaborada por um grupo de especialistas convocados pela SBC, que realizaram revisão da literatura e discussões estruturadas para formular recomendações. A metodologia adotou uma classificação de evidências em três níveis (A, B e C) e dois graus de recomendação (Forte e Ponderada/Condicional). Para o tratamento, foram consideradas evidências diretas de ensaios clínicos randomizados (ECR) na CCDC (nível A), evidências indiretas de ECR em outras cardiopatias (nível B) e evidências de estudos observacionais ou plausibilidade extrema (nível C). Para o diagnóstico, a acurácia dos testes foi avaliada com base em estudos transversais de qualidade. O documento aborda epidemiologia, patogênese, história natural, diagnóstico, estratificação de risco e condutas terapêuticas para IC, arritmias, complicações tromboembólicas e subgrupos especiais.
**Key Results**
A diretriz apresenta várias recomendações específicas. Para o tratamento da IC com fração de ejeção reduzida (ICFEr, FEVE ≤ 40%), recomenda-se: diuréticos para congestão (Forte, nível C); IECA ou BRA para reduzir morbimortalidade (Forte, nível B); betabloqueadores (carvedilol, succinato de metoprolol, bisoprolol) em pacientes estáveis (Forte, nível B); espironolactona para pacientes sintomáticos com creatinina ≤ 2,5 mg/dL e potássio ≤ 5,0 mEq/dL (Forte, nível B); e sacubitril-valsartana em substituição ao IECA/BRA para pacientes sintomáticos (NYHA II-III) em terapia tripla otimizada (Ponderado, nível B). Para arritmias ventriculares, a amiodarona é recomendada para TVS hemodinamicamente estável com FE > 40% (Ponderado, nível B) e para pacientes com indicação de CDI mas sem acesso ao dispositivo (Ponderado, nível C). O CDI é indicado para prevenção secundária em pacientes recuperados de parada cardíaca por FV/TV sem pulso (Forte, nível B) e para TVS com síncope e FE ≤ 40% (Forte, nível B). Para prevenção primária, o CDI é ponderado para pacientes com TVNS, síncope e indução de TVS instável ao EEF (Ponderado, nível B). O transplante cardíaco é recomendado para IC refratária (Forte, nível B). Para prevenção de AVC, anticoagulação oral é indicada para FA com CHA2DS2-VASc ≥ 2 (Forte, nível B) e para trombo mural (Forte, nível C).
**Clinical Implications**
Esta diretriz atualiza e consolida as recomendações para o manejo da CCDC, enfatizando a necessidade de uma abordagem individualizada baseada na estratificação de risco. A recomendação de betabloqueadores, IECA/BRA e espironolactona para ICFEr é forte, apoiada por evidências indiretas de alta qualidade de outras cardiopatias. A amiodarona mantém um papel importante no tratamento de arritmias ventriculares, especialmente em pacientes com FEVE > 40% ou sem acesso ao CDI. A indicação de CDI é mais restritiva do que em outras cardiopatias, sendo fortemente recomendada apenas para prevenção secundária em pacientes com FEVE ≤ 40% e eventos arrítmicos graves. A diretriz também destaca a importância do tratamento etiológico com benznidazol em fases iniciais da doença e a necessidade de monitorização da reativação em pacientes imunossuprimidos. A implementação de serviços estruturados e multidisciplinares é considerada crucial para melhorar o prognóstico e a qualidade de vida dos pacientes com CCDC.